Hachnassat Orchim: Celebrando a diversidade em época de pandemia

No início de novembro deste ano, lemos a Parashá Vayerá que conta a história de Avraham que, logo após sua auto-circuncisão, recebe uma visita de Deus. Ao contrário da interpretação ordinária em que Avraham teria recebido a presença divina por meio de três anjos que se apresentariam na forma de viajantes, a literatura rabínica traz outra interpretação deste momento. Na visão talmúdica, Deus não se apresentara pelos viajantes que depois se revelariam anjos, mas por ele mesmo, de forma individual, que estaria visitando Avraham por conta de seu procedimento cirúrgico. Então, durante essa visita, Avraham avista três viajantes famintos. Ao ver estranhos, sem saber que se tratavam de anjos, vendo-os apenas como homens comuns, ele se ajoelha perante Deus e pede-o que o espere ajudar a estes viajantes para depois, dar continuidade a visita. 

Avraham já tinha o costume de receber viajantes em sua casa, mas como mostra a interpretação talmúdica, é surpreendente que em um de seus primeiros momentos reveladores de ter um contato visual com Deus, ele perceba a presença de estranhos que passam por necessidades e decida ajuda-los no exato instante de um dos eventos mais importantes de sua vida. A partir desta interpretação, os rabinos salientaram o valor de Hachnassat Orchim na frase “Gdolá hachnassat orchim mecabalat pnei haShechiná” – “É mais importante receber ao estranho do que à presença divina.” (BT Shabat 127a)

Isto é, as necessidades de outras pessoas são mais importantes que meus desejos espirituais. Estes devem vir em segundo plano quando também falo em me importar com o próximo. Quando uma única pessoa não é recebida dentro de um ambiente judaico, a presença divina ali se torna inválida. E é quando pessoas acabam se sentindo estranhas e à parte do seu próprio povo, que mais devemos nos preocupar. 

Em meio a um ano tão turbulento que este tem sido, surgiram diversas iniciativas solidárias que trabalham a equidade e o reconhecimento da diversidade dentro da comunidade judaica mundo à fora. Pudemos observar a resiliência de transformar um período tão complexo e intimidador em um momento para trabalhar este que é um dos valores que melhor salientam a inclusão como um valor judaico. 

No mês de julho, a UJR-AmLat se uniu a diversas congregações e comunidades judaicas reformistas ao redor do mundo ao celebrar pela primeira vez o Chodesh haGa’avá (mês do orgulho) que acontece em homenagem à população LGBTQIA+, que no dia 28 daquele mês em 1969, teve o marco da revolta de Stonewall em Nova York. Nessa época ao redor do mundo, diversas instituições progressistas continuam recordando e celebrando esta data na esperança de uma sociedade inclusiva e justa.

As celebrações desse mês incluem palestras, shabatot especiais e outras formas de trazer a temática à tona. Apesar das limitações espaciais provocadas pelo isolamento social, a tecnologia foi responsável por uma primavera de novas formas de praticar o judaísmo, desde palestras com convidades espalhades pelo mundo todo reunidos em um único espaço virtual, até celebrações religiosas por videoconferências em que cada família pôde acompanhar na segurança de sua casa. Não foi diferente para a celebração do mês do orgulho.

Com uma série de palestras online feita em parceria com o Instituto Brasil-Israel e o ARZENU, convidades do Brasil e de Israel puderam contar suas experiencias e ensinar sobre suas realidades, muitas vezes marginalizadas na própria comunidade judaica. Não só foi um espaço para conhecimento, como também para identificação. Pessoas que por muito tempo estiveram longe do judaísmo ou sentindo dificuldade de se encaixarem em um espaço que sempre quiseram estar presentes, mas sem algo ou alguém que as representassem, tiveram a oportunidade de descobrir que existem pessoas com realidades e desejos como as delas, assim mostrando que toda pessoa judia tem um lugar no judaísmo que independe de sua orientação sexual, gênero, cor ou qualquer fator identitário, pois são partes formadoras de quem somos e consideramos cada pessoa, dentro de sua identidade, uma bênção.

A série de webinars foi uma das diversas ações que surgiram com esta temática. Na Congregação Israelita Paulista, jovens adultos criaram um grupo de estudos judaicos dentro de uma visão LGBTQIA+ com participantes convidades de todo Brasil, abraçando uma tradição literária que por muito tempo foi um impedimento de diverses judias e judeus LGBTQIA+ se sentirem parte de sua religião. Assim também surgiram iniciativas com outras temáticas como o curso “Judaísmo e Gênero” pelo Centro Cultural Mordechai Anilevitch do Rio de Janeiro que proporciona conversas que muito abordam a participação da mulher na vida judaica e um curso voltado a participação da juventude dentro do movimento reformista pelo Tamar AmLat.

O sucesso e o crescimento contínuo de ações envolvendo essas pautas vem de uma antiga necessidade dentro da comunidade judaica de se falar sobre identidade; sobre o que forma cada indivíduo ali presente e que essas características individuais não precisam ser deixadas de fora de suas vivências judaicas e sim interseccionadas. É sobre reconhecer e trazer a diversidade para dentro de nossas práticas. E quando formos de encontro com textos, ritos ou hábitos culturais com o qual não nos representam e muitas vezes nos fazem sentir à parte de nossa tradição, é importante lembrar que não existem interpretações errôneas no judaísmo, mas muitas vezes nos é ensinada uma interpretação que não abraça a todes. E como pessoa judia, você pode trazer uma nova, quando a que você aprendeu, não lhe representa. Assim, você abre não só uma porta para praticar um judaísmo com significado para si, mas também para qualquer pessoa que tenha as mesmas vontades e necessidades.

A diversidade é um fato presente na sociedade como um todo. Por muito tempo se perpetuou a ideia de que nossas comunidades seriam um tipo de ambiente separado da sociedade, onde as questões pessoais e individuais ficariam à parte. Essa divisão entre o que é pessoal e o que é judaico foi utilizada por muito tempo para silenciar outras perspectivas. Por isso, trazer a diversidade para o judaísmo é possibilitar que essas perspectivas pessoais possam também acontecer nos nossos ambientes, tanto comunitários quanto individuais. 

Quando pensamos em nossas sinagogas, escolas, centros comunitários, movimentos juvenis e diversos ambientes como uma extensão da sociedade e um reflexo de como ela se estrutura, sendo cada integrante um representante de cada parte que a constrói e que traz com ele toda uma vivência que ao mesmo tempo que é individual, também partilha de características idênticas dentro da vivência de outres, podemos reconhecer essa diversidade e assim exercer a inclusão e hospitalidade para todes. De abraçar o valor de Hachnassat Orchim, nos espelhando em valores que atravessam a história de nossos patriarcas e matriarcas até os dias de hoje. 

Que essa oportunidade de resiliência que conseguimos abraçar e construir em um período tão conturbado, possa se perpetuar, continuar crescendo em nossas vivências e ser exemplo para as próximas gerações de que toda individualidade importa e cada uma sempre pode ser uma fonte para um novo caminho de praticar uma antiga tradição que cada um de nós carrega consigo e assim receber e contemplar a todes, assim como Avraham recebeu o estranho e nos entregou esse valor tão judaico e universal de celebrar o que nos torna diferentes na mesma intensidade que nos iguala enquanto humanos.

André Liberman é membro do Keshet Ga’avah (Congresso Internacional de Judeus LGBTQ), colaborador do Departamento LGBTQ do Instituto Brasil-Israel, membro da Jovem Liderança do ARZENU, e integrante da Juventude da UJR-AmLat.