Um Novo Mishkan – Comentário sobre a Parashá Terumá

Por André Liberman
Shabat Terumá – 04/02/2022

ועשו לי מקדש ושכנתי בתוכם
“E deixe que Me façam um Santuário para que Eu habite entre eles”

Neste shabat lemos a Parashá Terumá, que fala sobre a construção do Mishkan, o Tabernáculo, onde habitaria a Shechiná, a presença divina na Terra. Deus ao pedir que o povo judeu construa um lar para Ele, informa a Moshé de que a santidade não habitaria apenas no Mishkan, e nem mesmo com algum grupo seleto de pessoas com qualquer grau de poder. A santidade habitará em meio ao povo, e contribuem para a construção do Mishkan todos cujo coração os faz produzir para todo tipo de trabalho. Toda contribuição feita com o coração para a construção daquele local santo é válida. 

Essa narrativa reforça a presença dos valores de inclusão, acolhimento e construção de comunidade na nossa tradição. É nela que espelhamos nossas ações para tikun kehilati, o aprimoramento de nossa comunidade. Como judeus reformistas, acreditamos que o aprimoramento da comunidade é vinculado ao nosso aprimoramento pessoal (tikun atzmi) e ao aprimoramento da sociedade e do mundo como um todo (tikun olam). 

Da mesma forma, existem três tipos de santuários incluídos no mandamento da construção do Mishkan: o santuário físico – que o povo judeu construiu no deserto; o interior e pessoal – que cada um deve edificar em sua própria vida e no seu espaço de influência social; e o mundo como um todo – que devemos transformar numa moradia para Deus. Todos de alguma forma são conectados e necessitam uns dos outros para que existam. E não é à toa que devemos centrar nosso aprimoramento e construção de nossa comunidade baseada no Mishkan. Foi nele em que cada individualidade e contribuição foi relevante e igualmente acolhida. 

Apesar disso, quando olhamos para hoje, muitas vezes nossas comunidades não se encontram como na história da construção do Mishkan. Mas sim, como na construção do Beit haMikdash, do Templo do Rei Salomão, que era uma maneira de recriar ou tentativa de recriar o Mishkan. Mas o Templo foi construído usando impostos agrícolas e a força de trabalho dos judeus em massa. A mesma forma usada para descrever o que o Faraó impôs aos judeus no Egito. 

O Templo do Rei Salomão era uma organização hierárquica e não um esforço comunitário como o Mishkan. Mas, apesar de como foi construído, o Rei Salomão foi informado de que era possível que a santidade habitasse entre eles, que se tornasse como o Mishkan, se as pessoas obedecessem às leis e aos mandamentos; se abrasassem os valores e a ética judaica, como por exemplo olhar a tzedacá de forma mais profunda, como uma forma de justiça.

Muitas vezes, como comunidade (ou até mesmo como pessoas), pensamos que estamos agindo como na construção do Mishkan, de forma justa e inclusiva. Mas será que estamos? 

Tova Stabin, uma judia, lésbica e crescida dentro de uma família de classe média baixa nos EUA, também responsável por uma incrível reflexão sobre inclusão de pessoas judias pertencentes à classe trabalhadora na qual me inspirei muito para escrever este texto, citou uma experiência própria sobre uma parente dela que é mãe solteira. Quando seus filhos eram mais novos, ela trabalhava em uma loja de donuts por um salário-mínimo. 

Tova sabia que era uma situação muito difícil e tentou ajudá-la financeiramente. Ela se solidarizou com sua parente que tinha esse trabalho e até pensou “estou construindo um Mishkan!” Mas na verdade, de acordo com ela, ainda estava presa no Templo do Rei Salomão. Isso porque, uma vez, ela estava visitando essa parente quando outro amigo dela estava lá. E quando esse amigo soube que ela trabalhava na loja de donuts, disse a ela “você deve ter que trabalhar tanto e saber tanto para trabalhar naquela loja de donuts! 

Neste momento, os olhos da vendedora se iluminaram e ela disse “Sim! Eu tenho que ser muito forte e levantar bandejas pesadas de donuts quentes. Tenho que falar com todo mundo, de homens de terno a viciados, e dou conselhos a eles. Eu rio das piadas deles, às vezes até sirvo como segurança. Eu trabalho duro, eu sei muito!” e Tova pensou: claro que a ajudei e até fui solidária, mas eu realmente respeitei quem ela era como pessoa, o que ela sabia e o que ela poderia trazer para a nossa comunidade? Nós em nossa comunidade sabemos a diferença entre ajudar alguém e respeitá-lo? A diferença entre tzedacá como caridade e tzedacá como justiça? Entre o Templo do Rei Salomão e o Mishkan? 

Nas palavras próprias de Tova: No Templo do Rei Salomão, quando tentamos aprender sobre questões trabalhistas, talvez peçamos a alguém que estuda História do Trabalho para vir conversar conosco e isso é ótimo. Mas no Mishkan, entendemos que precisamos perguntar talvez a um trabalhador de fast-food qual é o seu conhecimento.

Falando como um judeu LGBTQIA+ que vive dentro do ativismo por pertencer a um grupo de pessoas que por muito tempo não se viu representado na comunidade judaica ou que teve o judaísmo apresentado como inclusivo e que abraça a todas as experiências, mas não de forma tão explícita, sei como é sentir que sua individualidade não faz parte da construção de um Mishkan. Mas nossa experiência pessoal é mais do que importante. É necessária.

De acordo com uma interpretação do Midrash haGadol, os materiais doados para o Mishkan correspondem aos componentes do ser humano. “Ouro” é a alma; “prata”, o corpo; “cobre”, a voz; “azul”, as veias; “roxo”, a carne, e assim por diante. Nosso corpo é um lar para o que há de mais sagrado; divino e para o que nos conecta enquanto portadores da mesma centelha divina que origina tudo o que há em nossa volta. Nós, enquanto indivíduos, com nossa totalidade, somos uma grande contribuição para a construção de uma sociedade mais justa e consequentemente, de uma comunidade mais inclusiva e unida. 

Ter orgulho de nossas vivências, enxergá-las e trazê-las para nossa prática judaica é uma forma de trazer a diversidade que o judaísmo não só precisa, mas exige. E enquanto comunidade, abraçar de forma legítima a diversidade de experiências de nossos membros enriquece nosso Mishkan. Como dito uma vez por um querido Rabino e amigo, Uri Lam, quando refleti sobre a inclusão nos espaços judaicos durante a pandemia: É muito importante quando abrimos as portas das nossas sinagogas, mas depois que todos entram e elas se fecham, o que fazemos?

O ambiente de equidade não existe apenas quando anunciamos este espaço; quando damos uma oportunidade de criação de um espaço inclusivo, mas este não alcança a grande comunidade. E nós temos a capacidade de entender e discernir entre o Mishkan e o Templo do Rei Salomão todo shabat quando, ao cantarmos o Lechá Dodi, nos levantamos e nos direcionamos para a porta.

Isso porque, de acordo com um pensamento antigo judaico, ao virarmos para a porta, o “atrás” se torna a “frente”, e surge a oportunidade de quem se senta no fundo da sinagoga se tornar o primeiro a receber o shabat.

O shabat apenas virá em paz quando a comunidade judaica honrar as pessoas que estão nesta parte de trás. Às vezes esses judeus nem estão sentados na parte de trás da sinagoga, mas estão do lado de fora dela. E isso é o Templo do Rei Salomão. Que nesse shabat possamos refletir e entender que quando abraçamos a diversidade da nossa comunidade de forma legítima, a presença divina pode habitar entre o povo judeu. E assim, podemos dizer que estamos construindo um novo Mishkan.